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Kuarup: Termos e PronĂșncia

  • Foto do escritor: Michele Duarte Vieira
    Michele Duarte Vieira
  • 26 de mai. de 2025
  • 5 min de leitura

A cerimĂŽnia do Kuarup, praticada por diversos povos indĂ­genas do Xingu, Ă© mais que um ritual de despedida aos mortos ilustres. É um reencontro com os ancestrais, com o sagrado e com a continuidade da vida. Em sua complexidade simbĂłlica, danças, cĂąnticos e discursos formam um tecido ritual em que cada palavra carrega o peso da tradição. Compreender o que se diz antes e depois do Kuarup nĂŁo Ă© apenas uma curiosidade linguĂ­stica: Ă© um gesto de respeito, uma ponte cultural e um aprendizado profundo sobre a cosmovisĂŁo desses povos.


Este guia Ă© um convite ao cuidado. Aqui, vocĂȘ vai aprender termos fundamentais, suas pronĂșncias e quando usĂĄ-los com sensibilidade e autenticidade. Este conteĂșdo foi estruturado com base em fontes legĂ­timas e na escuta atenta da oralidade xinguana, especialmente dos povos KamayurĂĄ, Kuikuro e Kalapalo, para que o uso da linguagem nĂŁo seja um mero ornamento, mas parte viva da experiĂȘncia.



O Kuarup: o que representa e por que as palavras importam

No coração do Xingu, o Kuarup homenageia os mortos que, segundo a tradição, se transformam em ancestrais guardiÔes. A celebração é marcada por cantos, danças, pinturas corporais, enfeites de penas e a presença dos troncos de årvore (os kuarup) que simbolizam os mortos. Durante essa cerimÎnia, a linguagem falada assume um papel central: ela invoca, consola, honra e guia.


Cada momento do ritual tem fĂłrmulas especĂ­ficas de fala, nĂŁo improvisaçÔes, que respeitam a memĂłria e a hierarquia espiritual. A escolha das palavras, seu tom e atĂ© seu silĂȘncio sĂŁo codificados. Por isso, quem deseja participar, registrar ou aprender mais precisa saber o que se diz e, sobretudo, quando dizer.


Antes do Kuarup: como se preparar para o silĂȘncio e para a fala


1. SaudaçÔes de chegada à aldeia

Ao chegar na comunidade anfitriĂŁ do Kuarup, o respeito Ă© demonstrado logo nas primeiras palavras. A seguir, algumas expressĂ”es usadas ao se apresentar com reverĂȘncia:

  • “Aga xipa” (KamayurĂĄ) – "Estou vindo em paz".

    • PronĂșncia: A-ga SHI-pa.

    • Use ao ser recebido pelos mais velhos ou pelas lideranças.

  • “Etsu heko” (Kuikuro) – "Bom estar com vocĂȘs".

    • PronĂșncia: ET-su HÉ-ko.

    • Demonstra gratidĂŁo pelo acolhimento.

  • “Kukweneta” (Kalapalo) – "Estou pronto para aprender".

    • PronĂșncia: Ku-kwe-NE-ta.

    • Indicado para quem acompanha o Kuarup como aprendiz, observador ou convidado externo.


2. Palavras de preparação espiritual

Dias antes do Kuarup, hĂĄ um recolhimento espiritual. É o momento de palavras sussurradas, rezas em lĂ­ngua original e conselhos dos anciĂŁos. VocĂȘ pode ouvir ou dizer discretamente:

  • “ItangarĂĄ kene” (KamayurĂĄ) – "A alma estĂĄ se preparando".

    • PronĂșncia: I-tĂŁ-ga-RÁ KE-ne.

  • “Mukuheto” (Kuikuro) – "É tempo de recolhimento".

    • PronĂșncia: Mu-ku-HÉ-to.

  • “Nhiape” (Kalapalo) – "Vou escutar com o coração".

    • PronĂșncia: NHI-a-pe.

    • Uma forma de declarar silĂȘncio interior.


Durante o Kuarup: palavras que cantam, dançam e choram

O momento da cerimÎnia exige um vocabulårio específico, e nem tudo é permitido ser dito por todos. Muitos termos são restritos a cantadores, pajés e líderes de linhagem. Porém, hå formas legítimas de participar verbalmente com cuidado.


3. Palavras para acompanhar a dança e os cantos

Os cantos do Kuarup são repletos de onomatopeias, invocaçÔes e fórmulas fixas. Evite cantar sem ser autorizado. Mas hå expressÔes coletivas que os visitantes podem acompanhar:

  • “Heta!” – *"Força!" ou "Vai!"

    • Usado para encorajar os dançadores durante o ritual.

    • PronĂșncia: HE-ta.

  • “Oro ohe!” – "Escutem o espĂ­rito!"

    • PronĂșncia: O-ro Ô-rĂȘ.

    • Frequentemente repetido durante os cantos em honra aos ancestrais.


4. Durante o choro ritual (waimet)

O lamento é um momento sagrado. Algumas palavras são sussurradas ou murmuradas com emoção:

  • “Nhenheru” (KamayurĂĄ) – "AvĂŽ sagrado".

    • PronĂșncia: Nhen-he-RU.

    • Invocação feita a espĂ­ritos ancestrais.

  • “He aheke” (Kuikuro) – "Siga em luz".

    • PronĂșncia: HĂ© a-HÉ-ke.

    • Usada para se despedir do morto durante o lamento.


Depois do Kuarup: o que dizer ao retornar ao cotidiano

A cerimÎnia termina com a reintrodução à vida comum. A dança final simboliza o retorno à comunidade viva. O vocabulårio se transforma, ganhando tons de renascimento e continuidade.


5. Palavras para o renascimento coletivo

  • “Aheka hetenu” (KamayurĂĄ) – "Agora somos inteiros de novo".

    • PronĂșncia: A-HÉ-ka he-TE-nu.

  • “IrĂŽ mawaka” (Kuikuro) – "A luz voltou Ă  aldeia".

    • PronĂșncia: I-rĂŽ MA-wa-ka.

  • “Hekotire” (Kalapalo) – "Estamos vivos em comunhĂŁo".

    • PronĂșncia: He-ko-TI-re.

    • Usada para selar a uniĂŁo dos povos presentes no ritual.


6. Despedidas com reverĂȘncia

Ao se preparar para partir, nĂŁo se diz apenas “adeus”. A despedida Ă© tambĂ©m um reconhecimento da experiĂȘncia vivida.

  • “Kamu atarahu” (KamayurĂĄ) – "Que o vento leve minha gratidĂŁo".

    • PronĂșncia: KA-mu a-ta-RA-hu.

  • “Tete hiapo” (Kuikuro) – "Nos veremos com os espĂ­ritos"

    • PronĂșncia: TE-te HI-a-po.

  • “Wairai huka” (Kalapalo) – "Que a floresta nos reencontre".

    • PronĂșncia: WAi-RAI HU-ka.


Um passo a passo para aprender a falar com respeito

Aprender a falar com legitimidade diante de uma cerimĂŽnia como o Kuarup exige mais do que decoreba. Exige escuta, humildade e entrega. Aqui estĂĄ um roteiro para quem quer caminhar com respeito:

  1. Escute antes de repetir: A oralidade indĂ­gena tem ritmo, melodia e pausa. Grave com permissĂŁo e repita em silĂȘncio antes de tentar pronunciar em voz alta;

  2. Aprenda com um anciĂŁo ou tradutor autorizado: NĂŁo Ă© adequado repetir termos sagrados sem acompanhamento. Sempre pergunte se pode dizer determinada palavra;

  3. Use as palavras nos momentos apropriados: NĂŁo Ă© sĂł saber o que dizer, mas quando e com quem. A sensibilidade cultural Ă© mais importante que a fluĂȘncia;

  4. NĂŁo traduza tudo literalmente: Algumas palavras nĂŁo tĂȘm equivalentes em portuguĂȘs. Aceite o mistĂ©rio e o sentido implĂ­cito como parte do aprendizado;

  5. Leve as palavras no corpo, não apenas na boca: O Kuarup é uma dança, um gesto, um corpo pintado. Quando falar, que sua postura e seu olhar também sejam parte do respeito.


Uma Ășltima travessia de palavras

Participar, aprender ou mesmo estudar o Kuarup Ă© como atravessar um rio ancestral com palavras-canoa. Cada termo aprendido nĂŁo Ă© apenas uma forma de comunicação. É uma herança, um gesto de escuta, um fio que nos liga a um tempo mais antigo que o nosso.


Dizer “Aga xipa” com o coração aberto ao chegar. Dizer “He aheke” com lágrimas e firmeza ao se despedir de um espírito. Sussurrar “Kamu atarahu” ao partir. Não são apenas frases: são formas de fazer parte da vida que pulsa ali. É se deixar tocar, e tocar com cuidado.


O Kuarup, como cerimÎnia de memória e renascimento, nos ensina que as palavras não morrem: elas continuam dançando nos corpos que lembram, nos cantos que ecoam, nos passos que voltam. E, se ditas com respeito, elas podem atravessar o tempo com a força de uma saudade viva.


Que cada termo aprendido aqui seja uma semente lançada com reverĂȘncia ao solo fĂ©rtil da diversidade linguĂ­stica. Que ao pisar em solo xinguano, mesmo que sĂł em pensamento, suas palavras sejam ponte, nĂŁo pedra.

Hekotire. Estamos vivos em comunhão.

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